As vozes das pessoas
Agora a noite me lembrei das vozes das pessoas com quem convivi e convivo, lembrei-me da voz de meu avô, voz que já me é distante, preciso me esforçar para lembrar, uma voz quase perdida no tempo e eu ainda não visitei seu tumulo mas é certo de que quando eu morrer ele estará lá me esperando, criamos vínculos fortes nesta vida e na outra andaremos juntos de novo, como em um sonho que tive uma vez, viajávamos em um barco pelo céu, visitando os lugares que gostávamos, os pomares, os pastos, o milharal, a velha casa de madeira,e o barco foi pelo céu a beira da longa estrada. Lembro-me de sua voz em tom amável e conselheiro, nos dias frios de inverno, nos sentávamos perto do fogão vendo o fogo crepitar esperando pela janta, depois da janta ele fechava as janelas e as portas e todos íamos dormir tranquilos, em segurança, como se o tempo pudesse parar como na minha infância.
Lembrei-me da voz de meu pai, uma voz arrastada com sotaque italiano, uma voz diferente, com espaçamento melódico, que agora me parece familiar, confortável apesar de te-lo conhecido a poucos anos.
Então veio a voz de meu marido contando uma anedota, tentando ser engraçado, me irritando com suas tentativas, lembrei-me dele rindo de coisas horríveis e eu ficando desnorteada, não sei do que ele ri, não encontro graça em muita coisa, são quase vinte anos de convivência, muitos sofrimentos e afinal, do que ele ri tanto? A voz dele me irritando quando tenta impor sua razão, quando não consegue e faz media, como se concordasse comigo, ou quando fala muito alto, ou quando grita raivoso e me faz sentir vergonha.
Lembro-me da voz do meu filho, quando pequeno cismava com algumas palavras e pronunciava de maneira errada e engraçada, decidiu que leite era lerte, e assim ficou falando lerte por muito tempo, presunto era peçunta, motoca era totoca, apito era alepito, claro que eu adorava e me divertia, embora tivesse medo de que as pessoas pensassem que ele não sabia falar direito. Com o tempo a voz ficou grave, seria, sempre dominada pela razão, pela objetividade e as poucas vezes que ele tentou ser engraçado acho que eu o desencorajei. Ele tem a inexperiência de um jovem, mas tem a prudencia de um adulto, temo que ele tenha abdicado dos prazeres da infância tentando ser adulto, tentando entender o mundo dos adultos enquanto os pais imaturos, com crises existenciais não entendiam o que estava acontecendo. Lembro-me bem de sua voz quando cantou a musica do coelhinho assustado, ele estava brincando no quarto com um coelho de pelúcia. Foi a musica mais linda que já ouvi e ainda hoje a ouço, foi a unica vez que eu o vi cantar! Hoje sua voz é de adolescente, bravo, retrucador, e ele se recusa a cantar, mas colocamos ele no curso de violão, aprendendo a tocar, pode ser que queira cantar, tenho esperança de que um dia cante ao menos um refrão de alguma musica para que eu possa ouvir!
Lembro-me de outras vozes...